Como configurar um rastreador J16
Um J16 novo chega apontado para o servidor de quem o vendeu. Trocar isso são quatro comandos por SMS — esta é a ordem em que a gente manda e o que costuma dar errado em cada um.
Um J16 novo não chega neutro. Ele vem com o endereço de um servidor gravado na memória e com a APN de uma operadora que provavelmente não é a do seu chip. Enquanto esses dois valores estiverem errados, o aparelho liga, acende os LEDs, encontra satélite e não aparece em lugar nenhum — o que, para quem está instalando, é indistinguível de um aparelho com defeito.
Trocar isso são quatro comandos por SMS. O resto deste texto é a ordem em que a gente manda, o que cada um faz e o que costuma dar errado.
Antes de tudo: "J16" é nome de modelo, não de firmware
Circula mais de uma variante com esse nome. A que falaremos usa módulo SIMCom A7670SA e chipset GPS AT6558R; outra, que também se chama J16, roda firmware da Guixin sobre um SoC GX316. As duas falam GT06, aceitam praticamente o mesmo conjunto de comandos e divergem em detalhes — os limites aceitos em um parâmetro, o texto exato de uma resposta, um comando extra aqui e ali.
Na prática isso muda uma coisa só, e é a mais importante deste texto: não confie na resposta de sucesso, confira o valor gravado. Mais sobre isso na seção de conferência.
O que ter em mãos
- Um chip M2M com dados e SMS habilitado. O SMS é o canal de configuração; sem ele, o único jeito de falar com o aparelho é pela porta USB, com o aparelho na mão e um cabo.
- O número desse chip.
- A APN da operadora, com usuário e senha quando houver.
- O endereço e a porta do servidor da plataforma que vai receber as posições.
- O IMEI do aparelho. Está na etiqueta, e o próprio aparelho responde a
IMEI#. - Um celular comum, para mandar os SMS.
O manual pede um chip com função GPRS, o que é verdade e é pouco. Chip de celular comum costuma funcionar no primeiro dia e é o primeiro suspeito quando um aparelho começa a sumir da tela sem motivo semanas depois: a operadora trata aquele tráfego como o de um telefone, com as regras de um telefone.
Configure na bancada, instale depois
O manual coloca a instalação antes da configuração — instalação, boot, configuração, cadastro. Inverta as duas do meio. Ligue o aparelho na bancada, mande os comandos, confirme que ele apareceu na plataforma, e só então leve para o veículo.
Um aparelho que não conecta é um problema de dez minutos na mesa e de uma hora embaixo do painel.
O aparelho por dentro
A tampa frontal sai. Debaixo dela ficam o slot do SIM e a chave liga/desliga.
- Desligue o aparelho antes de pôr ou tirar o SIM. Não é recomendação de fabricante por precaução; é o jeito de não perder a configuração.
- O chip entra com a face de contatos voltada para a porta USB, e trava no slot.
- A chave ON/OFF é a explicação de quase todo aparelho que "não liga".
Onde instalar
O lado do aparelho sem adesivo é o lado da antena GPS. Ele fica virado para o céu; o adesivo vai para baixo. Nada de metal por cima, e nada de água.
Mantenha distância de sensor de ré, alarme, central multimídia e outros rastreadores: são fontes de sinal e atrapalham tanto o GPS quanto o GSM.
Em carro, os lugares que funcionam:
- Na estrutura sob o para-brisa dianteiro.
- Na região do painel, desde que a cobertura seja de material não metálico.
- Na estrutura sob o para-brisa traseiro.
- Dentro da porta ou na coluna central.
- Atrás do painel ou da central multimídia.
O porta-malas é alternativa, não escolha: fica cercado de lataria.
Em moto:
- Dentro da lanterna traseira ou de peças plásticas.
- Na sombra do farol, perto do hodômetro.
- Dentro da tampa frontal.
- Sob o pedal.
Em qualquer um deles, adesivo para baixo, longe de metal e protegido de água.
A fiação
Quatro fios no chicote:
- Vermelho — positivo. Aceita de 9 V a 90 V. É por onde o aparelho se alimenta e carrega a bateria interna.
- Preto — negativo. Aterre em ponto próprio na lataria. Não emende na linha de terra de outro equipamento.
- Laranja — ACC / pós-chave. É o que conta ao aparelho se o veículo está ligado.
- Amarelo — controle de bloqueio. Vai para o fio fino do relé, quando houver relé.
O fusível vem no chicote de fábrica. Ele está ali de propósito.
Sem o laranja ligado, o aparelho perde a noção de ignição: não distingue veículo ligado de veículo parado, e os intervalos de envio deixam de fazer sentido. Dá para contornar com ignição virtual por acelerômetro (SZCS#ACCLINE=0), que é uma aproximação e se comporta como tal — vibração vira ignição ligada. Prefira o fio.
Os quatro comandos
Os comandos vão como SMS de texto puro para o número do chip. Tudo em maiúsculas, vírgula é vírgula comum, sem espaço depois dela, e o # no fim faz parte do comando.
1. APN
APN,<apn>#, ou APN,<apn>,<usuário>,<senha># quando a operadora exigir autenticação.
Num chip M2M da Vivo seria APN,smart.m2m.vivo.com.br#. Use o que a operadora do seu chip informa.
Com a APN errada o aparelho registra na rede da operadora e nunca abre conexão de dados. É o sintoma que mais parece defeito de hardware e menos é.
2. Servidor
Por domínio, SERVER,1,<domínio>,<porta>,0#. Por IP, SERVER,0,<ip>,<porta>,0#.
O primeiro campo escolhe entre domínio (1) e IP (0). O último é o transporte: 0 é TCP, que é o que o J16 fala.
Prefira domínio. O IP do servidor é o dado mais caro de mudar que existe numa frota — ele está gravado dentro de cada aparelho, e trocá-lo significa um SMS para cada um deles, um a um, incluindo os que estiverem fora de área naquele dia.
O exemplo que vem no manual aponta para o servidor do fabricante. É exatamente por isso que este comando não é opcional.
3. Intervalo de envio
TIMER,<ignição ligada>,<ignição desligada>#
Os dois valores são segundos. O manual exemplifica com TIMER,60,3600#. A variante que temos em bancada aceita de 5 a 60 s no primeiro valor e de 5 a 1800 s no segundo, o que já mostra por que vale conferir o que ficou gravado em vez de assumir que o número entrou.
TIMER,30,300# é um ponto de partida razoável para veículo em operação.
Sobre o custo de dados: ele quase não depende do tamanho do pacote. Uma posição tem 41 bytes e viaja dentro de um cabeçalho TCP/IP de 40 — cabeçalho é cerca de três quartos do volume. Reportando a cada 30 segundos, parado, dá algo em torno de 265 KB por dia, uns 8 MB por mês. Quem quer gastar menos reduz o número de pacotes, não o conteúdo deles.
E o intervalo é um alvo, não uma promessa. Em economia de energia, com o veículo parado e sem ignição, o receptor GNSS desliga e as posições passam a chegar sem fixo até algo mover o aparelho.
4. Fuso horário
GMT,W,0,0#
Este é o comando que mais gente configura errado justamente por bom senso.
Deixe o aparelho em UTC. A plataforma guarda os horários em UTC e converte na hora de mostrar; se você gravar GMT,W,3,0# para "acertar" o horário de Brasília, o aparelho passa a carimbar os pacotes já convertidos e todo o histórico nasce três horas fora do lugar. Confirme com a sua plataforma qual é a expectativa — a nossa, e a maioria, espera UTC.
GMT reinicia o aparelho. Ele some por uns 30 segundos e volta.
Comandos que vale conhecer
SZCS#ACCLINE=0— ignição virtual por acelerômetro.SZCS#ACCLINE=1desliga.SOS,A,<número>#eCENTER,A,<número>#— cadastram os números que recebem alarme e que podem comandar o aparelho.SZCS#LED_ENABLE=0— apaga os LEDs. Numa instalação escondida, três LEDs piscando embaixo do painel são a única coisa que denuncia o aparelho. Apague depois de confirmar que está tudo funcionando: são eles que você vai ler no diagnóstico.RESET#— reinicia.FACTORY#— apaga tudo, servidor e APN inclusive. Depois dele a configuração é refeita do zero. Não é o comando para "tirar teimosia".
Conferindo se deu certo
O firmware não padroniza a resposta de sucesso. Dependendo do comando, ele devolve TIMER_OK, ou ACCALM:0,OK, ou o eco do comando seguido de =Success!, ou ainda o novo estado por extenso. Procurar uma palavra única de sucesso é uma integração que vai falhar em silêncio.
A forma confiável é perguntar de novo:
PARAM#devolve a configuração geral, incluindo o servidor no formatoIP[servidor:porta]. Compare com o que você mandou, caractere a caractere.STATUS#devolve o estado de operação:GPRS:Link Up,GPS:FIXED,ACC:OFF,Charging:13.1V. Sem alimentação externa, o último viraOnly battery:3.99V, e isso já é um diagnóstico.
Os LEDs dizem o resto:
- Amarelo (GSM). Piscando rápido e sem parar: não há chip. Piscando devagar: procurando rede. Fixo: conexão de dados de pé. Apagado: hibernando.
- Azul (GPS). Piscando devagar: procurando satélite. Fixo: posicionado. Apagado: dormindo.
- Vermelho (bateria). Fixo: carregando. Apagado: sem alimentação externa.
Uma última coisa que assusta quem está acompanhando pela primeira vez: o J16 não mantém a conexão TCP aberta o tempo todo. Ele abre, transmite, fecha, e repete o ciclo a cada poucos minutos. Alguns minutos sem conexão é o comportamento normal do aparelho, não uma queda.
Bloqueio
Com relé instalado no fio amarelo:
RELAY,1#corta.RELAY,0#devolve.RELAY#ouSTATUS#dizem em que estado ele está.
Não corte veículo em movimento. O comando não sabe a que velocidade o carro está.
No dia a dia esse comando não se manda por SMS: na plataforma o bloqueio é um botão, e o servidor entrega a ordem pela conexão TCP que o aparelho já abre sozinha. Como essa conexão vai e volta, o comando fica enfileirado e sai no próximo login — leva o tempo que levar para o aparelho aparecer. Com o aparelho offline de verdade, o SMS é o único caminho que resta.
Quando não aparece na tela
- LED amarelo piscando rápido, sem parar. O aparelho não enxerga o chip. Desligue, tire o SIM, limpe o slot e os contatos com pano seco, recoloque com a face de contatos para a porta USB.
- Nada acende. A chave sob a tampa está em OFF, ou o chicote não está bem encaixado.
- Registra na rede mas nada chega na plataforma. APN ou servidor errados.
PARAM#responde os dois; compare com o que deveria estar lá. - Aparece e some. Garagem fechada, prédio alto, estacionamento subterrâneo. Teste a céu aberto antes de suspeitar do aparelho.
- Tudo certo e mesmo assim nada. Chip sem dados, sem SMS, ou bloqueado pela operadora. É mais comum do que parece, e não dá nenhum sinal no aparelho.
O que muda de plataforma para plataforma
Dois valores, e só eles: o servidor e a APN. Todo o resto — fiação, posição da antena, intervalos, o jeito de conferir — é do aparelho, e vale em qualquer lugar onde ele for operar.
Se o J16 vai operar na DN Tracker, o endereço e a porta vão junto com a ativação do chip. Não é um dado que você precise caçar.